sábado, 28 de abril de 2012

Reflexões a partir do filme Milk

Acabo de assistir ao fillme "Milk", que relata a história real do político e ativista gay Harvey Milk. Um relato comovente, filme excelente e uma visão maravilhosa do mundo da perspectiva do ativista e dos gays. Não gosto de me referir a ninguém como um grupo, "os gays", "os goianos", "os católicos", "os deficientes"... para mim todos nós somos únicos, mágicos, vivendo em um mesmo planeta e no mesmo barco de dificuldades, crescimento e encantos, mas usei o termo por conta do filme.
O filme despertou em mim reflexões diversas a respeito de pessoas que, como eu, encontram-se em menor número de semelhantes na sociedade e sobre a dificuldade que é conseguir se fazer ver como igual e, ainda assim, com necessidades diferentes.
Hoje passei por uma experiência única: há anos uso muletas (uma ou duas) para me locomover por conta de uma prótese à qual não me adaptei e uma pele de coto delicada por conta da queimadura que sofri na infância e me fez perder os dois pés. Recentemente, com as bênçãos de Deus e milagres da tecnologia, consegui novas próteses pelo SARAH, às quais, na atual condição que me encontro financeiramente, jamais poderia custear. Tenho ido treinar semanalmente e estou experimentando novamente a liberdade de não precisar das muletas. Inenarrável liberdade e plenitude para mim, pois isso também significa que não estou sentido dor ao andar, o que muda completamente tudo à minha volta.
Bem, há anos, portanto, para onde vou enfrento a mesma dificuldade de andar com dor e o desconforto de caminhar com muletas, visivelmente portadora de deficiência física e necessidades especiais.
Hoje fui a diversos lugares sem as muletas e com um andar mais perto do "normal". O que não esperava, sinceramente, era notar uma diferença real na maneira como as outras pessoas lidariam comigo! Foi uma experiência curiosa... senti diversas pessoas com as quais convivo diariamente (com quem não convivo também) lidarem de forma diferente comigo, não sei bem explicar ainda, pois é muito recente, mas era como se agora eu fizesse um pouco mais parte de seu mundo, senti-me incluída, claro, o que é um bom sentimento, mas me fez refletir também sobre a questão da exclusão com a qual lidava de forma velada diariamente... e sei que com uma pessoa gay, exceto entre gays, também é assim.
Todos, pelo menos a maioria, tratamos todos com carinho e compreensão, mas não percebemos como, secretamente, de forma velada, deixamos que questões físicas e preferências sexuais nublem relações mais profundas com pessoas diferentes de nós. Claro, todos temos preferências, e não estou instigando nenhum espírito de constrangimento, o que seria ainda mais falso, ninguém gosta de todo mundo, mas deixo a reflexão para quem deixa de se aprofundar na relação com alguém gordo, gay, deficiente, religioso, mundano, ou de outra nacionalidade porque contém obstáculos sociais ou físicos, mesmo adorando aquela pessoa, merece atenção.
Sim, se relacionar com deficientes faz com que tenha que ajudá-los nos obstáculos físicos de sua vida; Sim, relacionar-se com gays significa enfrentar olhares preconceituosos de quem não sabe nada da amizade profunda que os une, e por aí vai, mas que relações verdadeiras não têm preço e que todos deveríamos ter direito a esta profundidade de relacionamento, enquanto ainda pulsamos, ah, isso com certeza!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Do diálogo à ação... uma ponte e tanto!

    Me considero uma pessoa com alguns porcento de prática ecológica a mais que a maioria das pessoas com quem convivo e, nem se fala, das superurbanas. Mas estou longe de contribuir de verdade para um planeta melhor. Digo isso quase que como um diálogo comigo mesma, na tentativa de acionar em mim e, quem sabe em você também, mais atitudes em prol de um planeta que não devia ser separado de nós, afinal, nós e o planeta somos um e o planeta é ainda mais importante pois, em essência, ele sobrevive sem nós (e muito melhor, talvez...) mas nós e muitas gerações de nós não sobreviveríamos minutos sem o básico ar.
    Entramos no planeta cheios de propriedade, de sentimento de posse e direito de uso, e consideramos uma opção cuidar ou não cuidar, proteger ou não proteger, e é aí que acho que mora o maior dos enganos! Como é que achamos que é uma opção não fazer de tudo para que as melhores práticas sejam consideradas por todos a única opção? Somos como uma praga que se espalha, se formos analisar o planeta como um organismo vivo que é, uma praga que consome até matar. Credo.
    Todos nós participamos de um sistema que distanciou o máximo possível o ser humano do natural, seja através do uso de um simples sabonete até ao consumismo de muito mais que devíamos.
    Mas seguimos considerando opcional lavar louças com detergentes super tóxicos e práticos e usar sabão em barra menos poluente. Tudo deixa rastros, tudo deixa embalagens e destrói basicamente desde a coleta da matéria-prima, um horror.
    Agimos diante de paradigmas: se em uma determinada época era lindo fumar, hoje é feio e quem fuma enfrenta olhares como "que horror, como pode gostar de se destruir assim". A conscientização traz informações que não tínhamos antes, mas com tanta informação, ainda há a opção de fumar ou não, e dane-se os outros, o planeta, você mesmo e a indústria tóxica de cigarros! Sou também dono deste planeta e faço o que quiser, não vou ficar por aqui muito tempo mesmo...
    O grande paradigma agora é a liberdade e a felicidade, individual em primeiro lugar, claro, e a margem de deturpação é grande pois a mensagem essencial disso deveria ser: seja livre para ser o mais feliz possível, mas com consciência. É impossível ser feliz sozinho, o planeta e nós somos um, então a compreensão do conceito de felicidade deveria passar pela compreensão de que não há como ser feliz sem devolver a quem nos proporciona a felicidade de estarmos vivos, estendendo aos seres humanos que partilham a existência conosco - uma felicidade completa.

E se eu não puder fazer tudo, espero conseguir fazer tudo o que puder. E que Deus me dê forças para não me acomodar diante de mudanças possíveis! Vamos?

terça-feira, 17 de abril de 2012

Fala demais por não ter nada a dizer...

Pessoas queridas me dizem o quanto gostam de meu blog e que aguardam novas postagens. Fico super feliz com isso, lisongeada, claro, mas principalmente satisfeita porque o que eu disse teve sentindo na vida de alguém, é essa a intenção.
No facebook vejo muitas pessoas postando, postando e postando diversas vezes no dia em uma ânsia de se comunicar, quase um desespero caótico por atenção ou uma catarse de comunicação desmedida que cansa quem vê. Sinceramente, não tenho exatamente nada contra ninguém ou nada que desejem postar, liberdade é essencial, mas me remete ao ponto que quero chegar: falar demais, postar demais, sem ter nada a dizer é vazio e desnecessário, pelo menos para o que quero aqui.
Embora eu deseje ter sempre muito a dizer, e tenho, existem momentos que me tiram as palavras, momentos de reflexão e introspecção que precisam de tempo... de maturação e observação. Estou em um momento destes.
Não gosto de mim assim... quase deprimida, introspectiva e pensativa... mas a experiência prova que os momentos de crescimento envolvem mudança e estou enfrentando diversas mudanças, tanto emocionais quanto de vida mesmo. Com o tempo, apesar do desconforto, aprendi a reconhecer que depois de toda fase "difícil", sempre aprendemos algo, algo criativo surge e uma mudança maior e melhor e é preciso aceitar este tempo para que os bons frutos apareçam e não seja só um "sujar de águas calmas". O caminho natural é realinhar-se.
Aprendemos com os erros, com os acertos e com as tentativas de acerto também, tudo leva ao crescimento e o efeito dominó afeta todos à nossa volta (com uma pitada de esperança, positivamente).

terça-feira, 3 de abril de 2012

Como Estudei e passei em meu primeiro concurso público

Embora este não seja o assunto que costumo abordar no blog, muitos amigos que estudaram, como eu, precisaram de um emprego estável para continuarem escrevendo e criando com mais liberdade, sentindo que seus filhos estão mais amparados financeiramente, me perguntam como consegui passar, se é difícil e tal. Como digo no tema do blog, "...e o que mais tocar nossos corações" e acho que todo caminho que trilho é sagrado pois faço com entrega e amor. Em respeito aos que me pediram, abri espaço para orientar sobre como passei, minha rotina de estudos e orientações.


Todos que estudam para concurso passam pelo mesmo dilema: como me organizar?
Um bom programa de estudos, que leve em conta o tempo que dispomos e as matérias a serem estudadas é um dos segredos para passar. 
Eu comecei minha trajetória de concurseira do zero e sozinha. Eu, Deus e a Internet. Realmente não sabia bulhufas sobre como estudar, o que eu iria enfrentar e, ainda por cima, não estudava há mais de 15 anos.
Mãe de cinco filhas, sem grana, com empregada somente meio período e com uma deficiência física que me impedia de agilizar boa parte das coisas que facilitariam a liberação de tempo para me dedicar, o que fazer?

O que eu tinha, de fato, era motivação. Minha motivação era minha família, que precisava, de uma vez por todas, de uma estabilidade financeira e, sem formação que me proporcionasse outros caminhos e despesas maiores que a profissão de autônoma me proporcionava, o concurso público me pareceu o caminho mais sensato a seguir, ainda que não pudesse ter certeza de que iria passar, eu teria que tentar, e com todas as minhas forças, pois não poderia ficar muito tempo estudando.
Eu sabia que muita gente estudava por anos para concurso e isso me amedrontava, lógico. Por isso deixei todas as atividades paralelas, comprei uma apostila para o INSS e separei, inicialmente, 2 horas para estudar. O edital estava para sair a qualquer momento, mas só saiu um ano depois disso.
Filhos são movidos por ritmos, no início elas estranham a nova rotina mas, com o tempo, passam a respeitar. O importante é fazer a mesma coisa todos os dias, organizando o tempo para eles também. Há dias em que fica caótico, normal, mas no outro dia eu começava tudo de novo.

Bem, ao começar a ler a apostila, fiquei desesperada. Não entendia nada! Depois de uma semana tentando, sem muito sucesso, decidi procurar um curso online. Paguei e, embora não tenha gostado muito, foi importante para o processo de organização. Comecei a ler blogs, passagens de livros e depoimentos para me orientar melhor. Lia Salgado, Hugo Goes, Ate Passar, todos!
Como estava sozinha, o blog Ate Passar foi essencial para entrar em contato diariamente com quem estava na mesma que eu. Ali fiz amigos de verdade, tive um grupo que motivava um ao outro constantemente e pratilhava desafios, desabafos, dúvidas e dicas.
Comecei estudando 2 horas, como disse, fui aumentando para 3, depois para quatro, passei um bom tempo estudando 6 horas por dia, 7, 8 e, após o edital, estudava entre 8 e 10 horas por dia. Me dividir era um desafio, mas me sentia tão motivada, tão positiva e confiante, que gostei  muito de todo o processo. Sou uma pessoa melhor, mais organizada, mais positiva e com mais auto-confiança.

Tudo foi importante mas, em resumo, gostaria de partilhar a essência do que funcionou melhor para mim:

Primeiro de tudo: confie em você mesmo. Mantenha sempre um pensamento positivo, escreva diversos papeizinhos coloridos com frases que te motivam e coloque em seu espaço de estudos. Eu costumava postar quase diariamente no Ate Passar a frase: “Menos um dia para a posse” e eu realmente sentia isso.
Em segundo lugar: escolha UM concurso. Ao escolher, verá pelo edital anterior as matérias que caíram, provavelmente serão as mesmas.

Terceiro: faça um plano de estudos. Esse tópico é a chave.

Antes do edital: Seja realista quanto ao seu tempo para estudos. Ao verificar quanto tempo tem para estudar, terá que dividir cada matéria por prioridade. No início conseguirá estudar menos, é normal. No edital anterior aparecem quantas questões por matéria e qual o peso de cada uma delas na prova. É importante também frisar as matérias que mais tem dificuldade, pois estas, fatalmente serão mais difíceis assimilar.
Pegue um papel ou arquivo de computador e digite as matérias a serem estudadas. Divida o tempo como orientei, por exemplo, se tiver duas horas, separe uma hora para as matérias principais (no meu caso – direito previdenciário e português) e a outra hora divida entre as matérias secundárias. Se precisar de mais tempo em uma matéria, separe um sábado para vê-la por mais tempo, por exemplo, mas por experiência, o melhor é ver todas as matérias todos os dias.
Fins-de-semana são para descanso, mas pode separar metade de um sábado e até o sábado todo para estudar uma matéria com mais dificuldade, mas eu separava para fazer exercícios, de acordo com o tempo de divisão das matérias que usei para a semana. Como diz a Lia Salgado: concurso é maratona, não corrida de obstáculos.
Durante todo o processo dos estudos é muito importante ter pedaços de papel que serão chamadas fichas-resumo para ir marcando tópicos importantes da matéria estudada. Uma vez por semana, volte neles e dê uma lida. Também pode colar na parede vários destes, bem coloridos, para ler ao estudar uma matéria.
Mais para o final dos estudos, já estava mais madura, a melhor forma de organizar os estudos para mim foi fazer duas tabelinhas bem simples: uma com a divisão das matérias por hora, seguindo diariamente, e outra com o que estava estudando em cada matéria. Foi o que funcionou melhor.

Essa tabela abaixo foi a que estudei para o Senado após o edital – as matérias em vermelho eram as de maior peso, matérias em azul para as de peso secundário. A tabela com “1ª, 2ª” eram as horas de estudos. Usei-a por uns 20 dias, já que tinha pouco tempo.

MANHÃ
Café da manhã e orientação das pequenas
1ª
1h – 7 às 8h
Português
2ª 
1h – 8 às 9h
Direito Previdenciário
3ª
1h – 9 às 10h
Direito Previdenciário
4ª
1h – 10 às 11h
Direito Previdenciário
5ª
1h – 11 às 12h
Direito Previdenciário
INTERVALO – banho pequenas, almoço, pão, descanso
TARDE
6ª
1 h – 2 às 3h
Informática – só questões voltando na teoria
7ª
1h – 3 às 4h
Exercícios de Direito Previdenciáiro
8ª
1h – 4 às 5h – meia hora cada de exercícios voltando na teoria
Direito Administrativo
8112
9ª
1h – 5 às 6h – meia hora cada de exercícios voltando na teoria
Ética
Constitucional
NOITE
10ª
1h – só exercícios voltando na teoria
Questões


Racicínio lógico
11ª  
1h - 8 às 9h
Questões
12ª
1h – 9 às 10h
Questões



Matéria

O que estou estudando

Lembrar

Português
Entender predicativo e ler redação oficial
Última semana só exercícios.
Específica
Aula 13 - pág 4

Aula  18

Direito Constitucional
Terminar constituição, art. 70 a 75
Áudio de direito const. 06 – 14min
Direito Administrativo
Ler tabela de prazos da 8666

8112
Giuliano Menezes – EXERCÍCIOS 2, 15 MIN – re-ler parte de rito sumário e penalidades.

Ética
Estudando o arquivo ética 15 min – PÁGINA 15
Questões 15 min
Ler art 116 da 8112 e comparar com os deveres do código de ética
Informática
Continuar revisão pelo caderno de flor
Revisando...
Raciocínio Lógico
AULA 4, pág 8





Além dessas, mantinha uma tabela estilo calendário para ir marcando e acompanhando quantos dias faltavam, dias que tinha compromisso, para não me perder no tempo.
Havia matérias que eu não entendia bulhufas mesmo após estudar muito e é aí que as vídeo-aulas entram. Sou super grata à equipe do Eu Vou Passar, com excelentes professores e materiais. Possuem cursos maravilhosos, sabem o que estão fazendo e o preço é acessível. Dá pra acompanhar um curso completo de alguma matéria ou assistir só o que tem dúvida.

Após o edital:
Tire quantos dias forem necessários para estudar o edital. Leia-o minuciosamente, marque o que achar importante, agende as datas... depois pegue as matérias que irão cair e cole em um arquivo em Word. Nomeie o arquivo e comece o trabalho de separação.
Cada matéria vá decompondo (um tópico abaixo do outro como no exemplo):
LÍNGUA PORTUGUESA
Leitura e análise de textos.
Estruturação do texto e dos parágrafos.
Articulação do texto: pronomes e expressões referenciais, nexos, operadores sequenciais.
Significação contextual de palavras e expressões.
Interpretação: pressuposições e inferências; implícitos e subentendidos.
Variedades de texto e adequação de linguagem.
Equivalência e transformação de estruturas.
Discurso direto e indireto.
Sintaxe: processos de coordenação e subordinação.
Emprego de tempos e modos verbais.
Pontuação.
Estrutura e formação de palavras.
Funções das classes de palavras.
Flexão nominal e verbal.
Pronomes: emprego, formas de tratamento e colocação.
Concordância nominal e verbal.
Regência nominal e verbal.
Ocorrência de crase.
Ortografia oficial.
Acentuação gráfica.
Redação Oficial (Manual de Redação da Presidência da República e Manual de Elaboração de Textos do Senado Federal).

Isso é apenas um exemplo: vá decompondo os pontos da matéria e marcando – vermelho para o que não sabe ou nunca viu, amarelo para o que já tem noção e verde para o que já sabe.
Durante os dias que antecedem a prova vá seguindo seu cronograma de estudos dando preferência ao que nunca viu até que todos estejam verdes. Quando já tiver visto tudo, foque em exercícios diariamente, voltando na matéria após cada exercício para firmar.

Nas últimas semanas até a prova é hora de fazer muitos exercícios e se lembrar do que teve mais dúvida de acordo com a banca de seu concurso. Isso você vai pegando o jeito com o tempo, mas é super importante também pegar o jeito com a banca. Sugiro demais o site Questões de concurso.
Na última semana também, revi todas as fichas resumo ponto por ponto.
Eu relaxei antes da prova. O dia anterior foi de completa paz, alegria, bons momentos e sono merecido.
O mais difícil, sem dúvida, nesta trajetória foi manter a motivação, pois é um processo isolado, que poucos compreendem e que é um desafio contra você mesmo e a seu favor.

No dia que vi meu nome na lista dos aprovados, ainda em primeiro lugar, confesso que sensação foi de alívio indescritível, tanto pela conquista quanto por não ter mais que estudar. Adorei todo o processo de estudos, mas claro que é um processo no mínimo intenso, uma fase necessária que passou, foi um ano de minha vida dedicada inteiramente aos estudos. Mesmo tendo sido para vagas especiais, o nível da concorrência foi alto e é um concurso federal, o mérito é o mesmo para mim!
Desejo esta sensação para você que, como eu, precisou e conquistou. O o futuro a Deus pertence e a quem se empenha em busca de seus objetivos, com fé, entrega e amor!

terça-feira, 27 de março de 2012

Quando a arte transcende a compreensão humana


Por alguns meses, logo após, finalmente, tirar minha tão sonhada carteira de motorista e adaptar nosso gol vermelho, dei aulas de arte com o método “Desenhando com o Lado Direito do Cérebro” em Corumbá de Goiás. Eu ia todas as semanas dar aulas. Acabei conhecendo diversas pessoas da cidade, fazendo amigos especiais.
A professora de minha filha mais velha, que se chama Miriam, foi uma dessas pessoas e acabei visitando-a algumas vezes, conhecendo sua família e mãe, uma senhora especial.
Como paralelamente também produzia minha arte e, na época, pintava quadrinhos em pedra Pirenópolis, dei de presente de aniversário para Miriam um quadrinho com um sol, céu e uma casinha.
O tempo passou, o curso terminou e muitas águas rolaram. Perdi o contato com eles, pois não voltei a frequentar Corumbá por questões da vida, embora guarde ótimas lembranças de lá.
Encontrei Miriam e ela me contou uma história linda com este quadro que quero partilhar:
Miriam contou que sua mãe havia falecido há cerca de 2 anos. Sua mãe adorava o quadro que eu havia dado.  Miriam se casou e, claro, queria levar seu quadrinho, retirou-o da parede e embalou. Sua mãe chegou na sala e disse:
- Onde tá o meu quadro?
- Mãe, eu embalei para levar. Disse Miriam.
- Não, aquele quadro é meu. É meu pedacinho do céu. Você já tá indo embora, pode deixar o quadro e, quando eu morrer, é pra enterrar junto comigo.
O tempo passou e sua mãe teve um AVC terminal irreversível e morreu.
Conforme havia pedido, Miriam colocou o quadro sobre seu peito e foi enterrada com seu “pedacinho do céu”.
Emocionei-me muito com esta história e de uma coisa eu tive certeza: do quanto a arte pode transcender barreiras e compreensão humana. Jamais imaginei que a arte que fiz com carinho e entrega, tivesse um lugar tão importante no coração de alguém que, aparentemente, não era admiradora da arte, mas com certeza, a arte do coração e da sensibilidade ela dominava bem. 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Por onde andava Maria do Sol?

O ano de 2011 passou para mim entre livros e meditações positivas. No início de 2011, nos vimos em uma situação financeira bem difícil por conta de nossos projetos não terem dado certo, mesmo tendo dado tudo de nós. Com cinco filhas para sustentar, dívidas impossíveis para nossos ganhos, morando em uma fazenda no interior de Goiás e devastados por dentro, nos vimos em um momento decisivo.
Meu marido, que sempre havia priorizado ficar perto de nós e cuidar de seu projeto de reflorestamento, teve que aceitar trabalhos fora de casa que o mantinham por dias longe e iniciar uma faculdade para aumentar seus ganhos a longo prazo. Eu, após muita reflexão, decidi estudar para o concurso do INSS, já que abriria uma agência na cidade mais próxima. Com cinco meninas e meu marido fora, sem carro para eu trabalhar, família para apoiar por perto, não havia como trabalhar fora sem que o valor compensasse.
A jornada começou com uma grande amiga, já concursada, me apoiando com as primeiras apostilas. Eu não estudava para algo assim há mais de 15 anos!
O início foi verdadeiramente difícil: encontrar uma rotina, ler coisas que eu não entendia nada, procurar apoio pela internet de pessoas que nunca vi, sem dinheiro para investir muito, tirar tempo das meninas e da casa e me acostumar a assimilar diversos conteúdos ao mesmo tempo. Eu sabia por onde começar: pela enorme motivação de gerar estabilidade para minha família e para mim, reforçada a cada dia.
A internet foi a grande ferramenta de estudos. Aos poucos eu ia lendo tudo o que podia sobre pessoas que já haviam trilhado este caminho, sobre como estudar, como administrar meu tempo, como assimilar melhor os conteúdos e o que cai em cada banca de concursos. Lia Salgado, mãe de quatro e hoje colunista da Globo.com foi uma grande inspiração com quem partilhei muitas angústias.
Em algumas semanas encontrei um cursinho online que também é um grupo de estudos, como um facebook de concurseiros no qual todos partilhava diariamente a rotina de estudos, trocam materiais e informações, desabafam e buscam apoio. O Até Passar foi essencial para mim, fiz amigos de jornada ali que nunca esquecerei. Dentre eles, conheci Maris, que também estava estudando para o INSS. Eu queria uma pessoa com a qual pudesse estudar a matéria principal, direito previdenciário, sentia esta necessidade e encontrei-a. Todos os dias, durante meses, separamos 1 hora por dia para estudarmos juntas, ela foi essencial para minha vitória. Digo a ela que foi um anjo em minha vida e é verdade.
Os meses foram passando e nada de edital do concurso. Mesmo estudando muito, via que o conteúdo era enorme e assimilá-lo exigiria muito tempo. Fui vendo que, se eu quisesse mesmo passar, ainda que fosse para as vagas especiais por conta de minha condição física, teria que dar tudo de mim. Foi aí que realmente entrei de cabeça e tive uma conversa muito séria com minha família sobre o que precisaria fazer para passar, sobre como iriam sentir falta de mim, de minha dedicação, bolinhos, agrados e apoio, mas que depois poderíamos desfrutar de uma vida muito mais estável e com menos stress.
Passei a estudar 4 horas por dia inicialmente, intercalando com exercícios físicos. Logo passei para 6 horas e, antes do edital, estava estudando 8 horas por dia.
Milhões de coisas aconteceram durante este ano todo de estudos. Com meu marido fora boa parte do tempo, ficava super difícil fazer compras, atender a qualquer necessidade médica minha ou das meninas e ter vida social. Minha empregada foi embora e só pudemos pegar uma ajuda meio período, tivemos necessidades financeiras reais e eu tinha que manter meu foco apesar de tudo.
Nos mudamos para a cidade no início do ano com o edital já na praça. Conseguimos uma casa maravilhosa, perto da escola das meninas e montamos um tipo de acampamento, com somente o mínimo necessário para ficarmos até receber a resposta do INSS. Avisei na escola que só compraria os uniformes depois de março e assim foi.
O que não esperávamos era que no edital não teriam vagas para deficientes em minha cidade... o choque foi enorme. E agora? Dias de agonia tentando escolher um lugar para prestar o concurso no qual pudéssemos ser felizes até conseguir transferência de volta para cá. Escolhemos uma cidade pequena da Bahia, perto de Salvador, perto de um polo da faculdade de meu marido e do Sarah, onde faço tratamento. Pronto, seja o que Deus quiser e sempre quis viver na praia.
Dia após dia estudando até 10 horas diariamente, me desdobrando sem empregada (no final já tínhamos uma meio período), filhas, escola, marido e mantive meu foco. Pensamento positivo, meditação, foco, sentimento de prioridade neste momento, vídeos de motivação, café e fé! Todos os dias eu acordava e dormia reforçando meu ideal e a frase “menos um dia para a posse”, que li um dia no Até Passar e que me nutriu.
Fiquei anti-social? Mais ou menos. Hoje sei que não por tantas pessoas felizes com minha conquista. Eu não tinha realmente como me desdobrar para ter tempo para todo mundo, mas sempre fiz questão de nutrir minhas amizades e familiares, nem que fosse com uma pequena visita, um email carinhoso, alguma notícia rápida e com minhas filhas e marido não era diferente. Minha pequenina, de apenas 2 anos, chegou ao ponto de me dizer: - “Eu vou ficar com o papai e a mamãe vai estudar, né?”. Eu não teria chegado ao fim ficando isolada do mundo totalmente, não se pode ter um final feliz para uma jornada infeliz.
Chegou a prova: muita grana para viajar e insegurança, mas lá fui eu. Mágicas aconteciam a todo momento, com pessoas queridas aparecendo para me apoiar e tudo perfeito. Fiz a prova sem ficar muito nervosa, já passei por muitas provas de vida, esta não seria das mais difíceis. No meio da prova, confesso, senti frustração por, após tanto tempo de estudos, ainda sentir dificuldades em responder. Respondi e saí com sensação de que estava nas mãos de Deus mesmo. Não senti que teria pontuação para passar. Fiquei arrasada ao ver que minha pontuação tinha sido abaixo do que eu esperava, chorei e continuei estudando para o Senado, que havia saído e para o qual já estava inscrita.
Estudei mais de 10 horas por dia para o Senado no último mês, sem resposta do INSS. A prova do Senado seria dia 11 de março e, no dia 5 de março, no fim da tarde, saiu o resultado do INSS. Abri a página e... meu nome em primeiro lugar para a minha vaga. SILÊNCIO. O MUNDO PAROU. As lágrimas começaram a descer e, junto com elas, um filme completo de tudo o que passei para chegar até aqui. Uma sensação de alívio foi tomando conta do meu corpo enquanto as lágrimas desciam sem controle. Minha filha mais velha, já sabendo que o resultado sairia, chegou já pronta para me consolar, quando olhei em seus olhos, sentada diante do computador, e disse: -“EU PASSEI, EU PASSEI, EU CONSEGUI!!!”
Minha segunda filha chegou e choramos juntas, elas me dando parabéns, emocionadas.
Peguei o telefone e liguei para meu pai, que me apoiou sempre durante todo o processo, e contei, aos prantos, que havia passado. Foi lindo ver como ele se sentiu feliz e aliviado por mim também, foi assim com minha mãe, minha segunda mãe (minha madrasta querida), meus irmãos, amigos e meu marido, que estava fora a trabalho e recebeu a notícia por outra pessoa.
Minha família passou junto comigo. Se não fosse o apoio incondicional de meu marido e filhas, ainda que significasse uma privação que tinha data para começar mas não para terminar eu não teria conseguido. Nunca tive vontade de desistir, mas tinha que reforçar meu propósito sempre e exigiu muito, muito de mim.
Fui fazer a prova do Senado, não sei como fui, mas meu coração já está tranquilo pois conquistei o que almejava e, com certeza, este será o degrau para meu sonho que é ser escritora. E este episódio da minha vida, com certeza, servirá de inspiração para muitas páginas!
Obrigada por todos que me apoiaram. E, para aqueles que acham que ser servidor público é ruim ou mortifica a pessoa, não sabem o que é aproveitar oportunidades e eu: seguirei em frente!
Estou de volta a meu blog, logo postarei mais de tudo que transborda de meu coração e experiências, agora com mais tranquilidade financeira e na beira da praia... hehehe.