
Acabo de assistir ao fillme "Milk", que relata a história real do político e ativista gay Harvey Milk. Um relato comovente, filme excelente e uma visão maravilhosa do mundo da perspectiva do ativista e dos gays. Não gosto de me referir a ninguém como um grupo, "os gays", "os goianos", "os católicos", "os deficientes"... para mim todos nós somos únicos, mágicos, vivendo em um mesmo planeta e no mesmo barco de dificuldades, crescimento e encantos, mas usei o termo por conta do filme.
O filme despertou em mim reflexões diversas a respeito de pessoas que, como eu, encontram-se em menor número de semelhantes na sociedade e sobre a dificuldade que é conseguir se fazer ver como igual e, ainda assim, com necessidades diferentes.
Hoje passei por uma experiência única: há anos uso muletas (uma ou duas) para me locomover por conta de uma prótese à qual não me adaptei e uma pele de coto delicada por conta da queimadura que sofri na infância e me fez perder os dois pés. Recentemente, com as bênçãos de Deus e milagres da tecnologia, consegui novas próteses pelo SARAH, às quais, na atual condição que me encontro financeiramente, jamais poderia custear. Tenho ido treinar semanalmente e estou experimentando novamente a liberdade de não precisar das muletas. Inenarrável liberdade e plenitude para mim, pois isso também significa que não estou sentido dor ao andar, o que muda completamente tudo à minha volta.
Bem, há anos, portanto, para onde vou enfrento a mesma dificuldade de andar com dor e o desconforto de caminhar com muletas, visivelmente portadora de deficiência física e necessidades especiais.
Hoje fui a diversos lugares sem as muletas e com um andar mais perto do "normal". O que não esperava, sinceramente, era notar uma diferença real na maneira como as outras pessoas lidariam comigo! Foi uma experiência curiosa... senti diversas pessoas com as quais convivo diariamente (com quem não convivo também) lidarem de forma diferente comigo, não sei bem explicar ainda, pois é muito recente, mas era como se agora eu fizesse um pouco mais parte de seu mundo, senti-me incluída, claro, o que é um bom sentimento, mas me fez refletir também sobre a questão da exclusão com a qual lidava de forma velada diariamente... e sei que com uma pessoa gay, exceto entre gays, também é assim.
Todos, pelo menos a maioria, tratamos todos com carinho e compreensão, mas não percebemos como, secretamente, de forma velada, deixamos que questões físicas e preferências sexuais nublem relações mais profundas com pessoas diferentes de nós. Claro, todos temos preferências, e não estou instigando nenhum espírito de constrangimento, o que seria ainda mais falso, ninguém gosta de todo mundo, mas deixo a reflexão para quem deixa de se aprofundar na relação com alguém gordo, gay, deficiente, religioso, mundano, ou de outra nacionalidade porque contém obstáculos sociais ou físicos, mesmo adorando aquela pessoa, merece atenção.
Sim, se relacionar com deficientes faz com que tenha que ajudá-los nos obstáculos físicos de sua vida; Sim, relacionar-se com gays significa enfrentar olhares preconceituosos de quem não sabe nada da amizade profunda que os une, e por aí vai, mas que relações verdadeiras não têm preço e que todos deveríamos ter direito a esta profundidade de relacionamento, enquanto ainda pulsamos, ah, isso com certeza!